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O CENTRO DO ENSINO
Miguel Esteves Cardoso
Público, 06.02.2009
Gosto de publicidade e acho que se aprende muito com ela. Saber o que as pessoas e as empresas querem parecer e ser (quando forem grandes) é informativo e, às vezes, comovente.
Agora há muitas universidades e apesar de haver muitos alunos também não chegam para todas. A concorrência é cruel e há tantos cursos que se torna difícil inventar um que não exista já. Experimente. É um divertido jogo de salão. Quanto mais imaginário parecer, maior a probabilidade das inscrições estarem abertas.
A publicidade das universidades não é menos imaginosa. Ontem reparei que a Universidade Autónoma de Lisboa – cujo logótipo tem uma coroa de louro em cima do A como agradecimento a Apolo – começou a anunciar-se como “A única universidade no centro de Lisboa”.
De facto, não é mentira: é no Conde Redondo, tão perto do Marquês de Pombal como do Elefante Branco. Mais central não podia ser. Dá jeito estudar numa universidade tão bem situada. Sai-se das aulas e, passados uns minutos, pode-se estar na Smarta ou no Dolce e Gabbana.
Como irão as outras universidades contra-atacar? Todas estão bem situadas, dependendo do que se pretende. Há, por exemplo, o excelente ISPA em Alfama. Seria incapaz de contra-atacar com “A única universidade no coração do Fado de Lisboa”. Mas poderia, se quisesse.
Cheira-me que esta guerra, que aproxima, com saborosas promessas, o mundo académico do mundo imobiliário, ainda mal começou.
FIELDNOTES
Some fieldnotes taken right after attending an international scientific congress in September 2008:
Participants are precious and must be as many as possible. They pay well and need to attend congresses in order to make a living. Scientific congresses are good business. Cities welcome them.
At the sessions, they present papers one after another. It doesn’t matter if, in order to anticipate “last remarks”, a participant must skip some in-between steps. The audience applauses every presentation. It is polite. Debate should be brief, another presentation is waiting.
Language skills are not absolutely required. Translation is dispensable. Communication is not a fundamental thing.
Slideshow presentations are almost plenary. Presentations tend to be schematic and fragmentary. Slideshows create illusory sense of unity.
These are occasions for the researchers to meet. A scientific debate would risk unwanted disagreements. Organisers offer many opportunities for them to meet each other. They have lunch together. A formal dinner is also offered. In their spare time, they can visit the city together in planned excursions.
Participants conspire in order to get research subsidies. They exchange “business cards” during casual meetings. Some international networks are born spontaneously. Strangers become potential partners in a couple of minutes. It is important to have different nationalities and disciplines represented in networks. Identification cards (name, institution and country) are very helpful. Participants exchange previous experiences as applicants to research funding.
DOS ALHOS E DOS BUGALHOS
MEASURING MORTARBOARDS
A new sort of higher education guide for very discerning customers
WORKING out exactly what students and taxpayers get for the money they spend on universities is a tricky business. Now the Organisation for Economic Co-operation and Development (OECD), a Paris-based think-tank for rich countries, is planning to make the task a bit easier, by producing the first international comparison of how successfully universities teach.
That marks a breakthrough. At the moment, just two institutions make annual attempts to compare universities round the world. Shanghai’s Jiao Tong University has been doing it since 2003, and the Times Higher Education Supplement, a British weekly, started a similar exercise in 2004. But both these indices, which are closely watched by participants in a fickle and fast-expanding global education market (see chart), reflect “inputs” such as the number and quality of staff, as well as how many prizes they win and how many articles they publish. The new idea is to look at the end result—how much knowledge is really being imparted.
“Rather than assuming that because a university spends more it must be better, or using other proxy measures for quality, we will look at learning outcomes,” explains Andreas Schleicher, the OECD’s head of education research. Just as the OECD assesses primary and secondary education by testing randomly chosen groups of youngsters from each country in reading and mathematics, it will sample university students to see what they have learned. Once enough universities are taking part, it may publish league tables showing where each country stands, just as it now does for compulsory education. That may produce a fairer assessment than the two established rankings, though the British one does try to broaden its inquiry by taking opinions from academics and employers.
There is much to be said for the OECD’s approach. Of course a Nobel laureate’s view on where to study may be worth hearing, but dons may be so busy writing and researching that they spend little or no time teaching—a big weakness at America’s famous universities. And changes in methodology can bring startling shifts. The high-flying London School of Economics, for example, tumbled from 17th to 59th in the British rankings published last week, primarily because it got less credit than in previous years for the impressive number of foreign students it had managed to attract.
The OECD plan awaits approval from an education ministers’ meeting in January. The first rankings are planned by 2010. They will be of interest not just as a guide for shoppers in the global market, but also as indicators of performance in domestic markets. They will help academics wondering whether to stay put or switch jobs, students choosing where to spend their time and money, and ambitious university bosses who want a sharper competitive edge for their institution.
The task the OECD has set itself is formidable. In many subjects, such as literature and history, the syllabus varies hugely from one country, and even one campus, to another. But OECD researchers think that problem can be overcome by concentrating on the transferable skills that employers value, such as critical thinking and analysis, and testing subject knowledge only in fields like economics and engineering, with a big common core.
Moreover, says Mr Schleicher, it is a job worth doing. Today’s rankings, he believes, do not help governments assess whether they get a return on the money they give universities to teach their undergraduates. Students overlook second-rank institutions in favour of big names, even though the less grand may be better at teaching. Worst of all, ranking by reputation allows famous places to coast along, while making life hard for feisty upstarts. “We will not be reflecting a university’s history,” says Mr Schleicher, “but asking: what is a global employer looking for?” A fair question, even if not every single student’s destiny is to work for a multinational firm.
From The Economist print edition
SEM QUARTEL
Recentemente, Louçã foi ao antigo quartel da Avenida de Berna arregimentar os estudantes contra a universidade nova. A gente que o recebeu, compreensivelmente entediada com a perspectiva de um curso sem emoções, protestou contra a irrelevância presente do “movimento estudantil”. Houve quem tivesse escolhido aquela faculdade no pressuposto – que a realidade logo tratou de contrariar – de ali haver condições especiais para a “subversão”. Referiu-se a gloriosa memória de uma associação de estudantes no centro das “lutas estudantis” dos anos 90. Ninguém, a começar no orador, pareceu consciente do novo estatuto de “clientes” e da reconversão expectável das velhas estruturas de estudantes em émulos das associações de consumidores, desejavelmente “profissionalizadas” e isentas de “militâncias” anacrónicas. A “luta” está sem quartéis, destruídos estes pela guerra sem cartel ao que resta da universidade.
A REFORMA DA UNIVERSIDADE
O QUE ELES QUEREM SEI EU
ISCTE quer fundação
Mónica Contreras
Contratar um professor na Índia ou nos EUA, que ganha mais do dobro de um português, passa a ser possível com a fundação
A transformação de uma universidade ou faculdade pública numa fundação é um dos temas que mais divisões tem provocado na discussão pública, que deverá terminar na próxima semana, com a partida dos deputados para férias. Depois do Instituto Superior Técnico, chegou a vez de o ISCTE mostrar interesse em ter uma fundação como pilar. “A recolha de doações junto de privados torna-se possível e a gestão financeira muito mais agilizada”, defende Luís Reto, o presidente de uma instituição com 16 cursos de 10 ciclo e 87 de 2º (mestrados) nas áreas das ciências sociais, da gestão e tecnologias. Com a fundação de direito privado, o orçamento do ISCTE pode, assim, engordar à custa de mecenase multiplicar os 15 milhões de euros canalizados pelo Estado e os 18 milhões de receitas próprias. Beneficiados? “Os alunos, os professores, os investigadores”, diz Luís Re to, que aguarda a aprovação do diploma para mostrar o seu projecto internamente. Com uma fundação, o ISCTE ganha uma liberdade que hoje não tem. “Pode conseguir bolsas para os alunos geniais ou contratar um professor de renome nos EUA ou na índia”, realça o presidente de um instituto que tem sete mil alunos e 450 docentes. Apesar de grande parte do projecto do Governo depender de decretos-lei posteriores, como um para anunciar as regras da passagem de uma instituição de ensino a fundação, o responsável do ISCTE realça uma vantagem já garantida: a criação de um quadro de pessoal próprio, que existirá em paralelo com quadro da função pública. O deputado socialista ‘Fagundes Duarte afirma não ser certo que a lei seja aprovada na próxima semana, “Há muitas propostas para debater e pode não haver tempo útil para a Comissão de Educação aprovar o diploma. Mas estamos a fazer o possível”. Se a discussão for acesa, o diploma não poderá ir a plenário antes de meados de Setembro. Entretanto, o Conselho Nacional de Educação deu um voto negativo à proposta de Mariano Gago.
in Expresso, 14/07/07
A UNIVERSIDADE EM RUÍNAS
É que, caso José Sócrates da Costa tivesse, este ano, feito o pedido de equivalência para o currículo pós-Bolonha do curso técnico de engenharia de Coimbra, seria já licenciado sem ter de pedir equivalências na Universidade Independente, agora sob suspeição pública.
Isto é, um grau de bacharel atribuído até ao ano passado corresponde, a partir deste ano, ao grau de licenciatura nos novos currículos universitários e politécnicos. E o célebre MBA do INDEG-ISCTE já poderia contar nos novos cálculos de créditos académicos como preparação académica para uma tese de doutoramento.
Segundo alguns comentários surgidos recentemente na comunicação social o(s) caso(s) da Universidade Independente seriam uma mancha numa instituição social respeitável – a Universidade. Outros, mais ousados, vêm alargar a suspeição sobre má qualidade do ensino, investigação e administração ao universo das universidades privadas.
O pressuposto implícito é que a universidade pública – ou melhor, a instituição social abstracta “A Universidade” – estará acima de suspeitas mesquinhas e continua merecedora de respeito e veneração da sociedade.
O dispositivo de gestão académica que está presentemente a ser montado nas universidades portuguesas, à semelhança do que tem acontecido na maioria das universidades europeias, e que decorre declaradamente dos chamados acordos de Bolonha, corresponde, na essência, à americanização do ensino universitário europeu, à adopção do chamado modelo de mercado, e à destruição de uma tradição secular de organização corporativa dos saberes.
É cedo para contabilizar as consequências da passagem do tsunami que tem sido a adopção nas universidades nacionais do modelo estandardizado europeu, mas a mais evidente é a da degradação do estatuto social dos títulos universitários: uma nova licenciatura corresponde a um antigo bacharelato, um novo mestrado a uma antiga licenciatura, um novo doutoramento a um antigo mestrado.
Claro que este, sendo o mais evidente dos efeitos, é também o menos trágico para o edifício universitário. O domínio ideológico e político que o Ministério do Ensino Superior, com o beneplácito das administrações universitárias, tem imposto a estudantes, docentes e investigadores, rege-se pela adopção de um modelo que privilegia contabilidade, avaliação de desempenhos, redução dos tempos de aprendizagem e de aprofundamento de conhecimentos, e adaptação ao mercado de trabalho.
Ora, como bem demonstrou Bill Readings, num livro fundamental designado A Universidade em Ruínas (Harvard, 1997), este modelo terminológico e agencial compraz-se na produção de uma ideologia bacoca – a da “excelência” – que ministérios e administrações universitárias vêem como única bóia de salvamento para uma instituição que não conseguiu resistir à declaração de falência enquanto produtora de cultura nacional perante os mais recentes desenvolvimentos do processo de mundialização cultural.
A minha experiência quotidiana como docente universitário tem-me mostrado de forma prática e contundente como a “bolonhização” do ensino superior português implica negar o que sempre tive para mim serem os princípios fundadores da instituição universitária: o livre pensamento e a aspiração de conhecimento.
Não estou animado por um espírito revivalista ou nostálgico. A instituição universitária portuguesa provavelmente nunca teve muito que a recomendasse, no que respeita à promoção dedicada desses princípios. Mas, ao contrário do que pretendem os administradores universitários actuais – submergidos que estão à lógica do marketing promocional -, o processo de Bolonha não vem oferecer aos incautos estudantes melhor ensino, maior aprofundamento de conhecimentos, e sobretudo mais “competência” e “excelência”. Providencia apenas o fim definitivo do estatuto do estudante – e, com ele, o do lente -, substituído pelo de cliente de uma Universidade transformada em empresa.
Neste sentido, o aparentemente questionável diploma do primeiro ministro foi apenas a mãe de todos os diplomas de Bolonha.
In Público, 12/04/07
LOOK WHO’S TALKING TOO

A Reforma da universidade
Vasco Pulido Valente
O objectivo da nova reforma de Mariano Gago é claramente o de aumentar o rendimento económico da universidade. Isto assenta em duas premissas falsas, que nenhum ministro da Ciência e do Ensino Superior devia aceitar.
A primeira premissa é a de que o valor material do conhecimento se pode prever. Há milhares de exemplos que provam abundantemente o contrário. Da física e da química à biologia e à lógica formal, a investigação “gratuita” ou, se quiserem, “pura”, chegou a resultados na aparência inúteis, que deram (e continuam dia a dia a dar) origem a indústrias cruciais da civilização moderna.
A segunda falácia é a de que o mercado e o poder político podem, por assim dizer, pôr a universidade (vista como uma espécie intolerável de “torre de marfim”) ao serviço do desenvolvimento.
Muito pelo contrário, introduzindo critérios particularmente perversos no trabalho académico, que não percebem e ninguém lhes pede que percebam, o mercado e o poder político só irão contribuir para a irrelevância e a paralisia da universidade.
Um dia destes, o dr. João Salgueiro, com a velha audácia da ignorância, explicava ao povo que, existindo cursos que levam ao desemprego (uma verdade incontestável) e cursos que não levam, o Estado português, como o Estado da Coreia do Sul, não faria mal em orientar a criançada, através, por exemplo, da concessão ou recusa de bolsas de estudo. Suponho que esta ideia agradaria ao eng.º Mariano Gago e que entre os cursos que o dr. João Salgueiro se propõe eliminar estarão os cursos de “Humanidades”. Mas se o dr. João Salgueiro por acaso soubesse um pouco de História, de Filosofia ou de Sociologia talvez compreendesse que o elemento decisivo para o progresso ou atraso de uma sociedade é a cultura que nela domina e não recomendasse com tanta ligeireza reduzir a universidade a um mero fornecedor de mão-de-obra “qualificada”.
É este, de resto, o grande erro do eng.º Mariano Gago. Como o nome indica, qualquer autêntica universidade pretende educar e formar um homem universal. A universidade indígena, sem campus e sem “vida em comum”, já não cumpre, ou provavelmente nunca cumpriu, esta função básica. Infelizmente, a reforma que o Governo prepara não se destina a corrigir a desagregação e o isolamento, que hoje sufocam o espírito académico. Pelo contrário, Mariano Gago quer partir tudo o que ainda resta de uma universidade mutilada e dispersa e subordinar cada bocadinho a uma tutela exterior e ao arbítrio do que governos passageiros esperam do futuro e pensam que o país precisa.
in Público, 1/07/07
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