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THE MARKETIZATION OF UNIVERSITIES

The marketisation of universities and some cultural contradictions of academic capitalism 

Hermínio Martins

 

(To all the decent, upright academics I have known)

 

“Sorry: your soul has just died” (Tom Wolfe)

“News from the rat race: the rats have won!” (Car bumper sticker)

 

THE CURRENT COMMITEMENT OF THE BLAIR LABOUR CABINET to a substantial increase in university tuition fees in the UK does not spring solely from the need to address the financial crisis in higher education. It is driven also by the sense that British universities or at least some of them must move towards a US exemplar/myth/utopia of the “world-class research university”, or some version of it, though no clear specification of the goal-state or even of a spectrum of scenarios, appears to have been published as yet. I am not sure whether many, or indeed any, of the distinguished academic backers and co-instigators of this drive share the brutal judgment expressed recently by a former Labour Minister of Education, resident in recent years in Cambridge, Mass., that Britain does not currently possess a single “world-class” university or multiversity, Britain having presumably slipped down into this outer darkness at some oddlyundisclosed point in the recent or perhaps not-so-recent past In fact, the recently published ranking of 500 world universities and 100 European universities, prepared by a team at the Shiao Jong University of Shangai, shows that Britain, as of 2003, was doing very well indeed in the number of universities in fairly high places in the list, in having two universities in the top ten (so part of the la crème de la crème), and four in the top twenty. No matter the merits or demerits of the Higher Education Bill, no matter what happens to it, now or in the next Parliament, the questions I am addressing will remain, possibly in an even more acute form.

 

My concern here is not with the question of the comprehensiveness and equity of access to universities supposedly ensured by the new financial arrangements, important as it is, or with the “output” so unengagingly described by The Financial Times in commending editorially these proposals, as nothing more than improved “intellectual skills of the workforce”. For which purpose, surely, you dont really need universities at all, let alone “elite universities”, as it calls them, and it is worth noting that this proverbial “mouthpiece of capitalism” eschews any additional reference to such desiderata, if not sheer requisites, of a healthy democracy as a well-educated citizenry –indeed the FT does not at all refer to the “citizenry”, or to the “nation”, or to the “people” of Britain, but only to the “workforce” (it seems to imply that the sole matter of concern is the transformation of the studentry into suitable labour market material or the vector studentryworkforce). It altogether fails to invoke the word “education” at all. Indeed, this “world-class” paper failed utterly to mention even any cognate terms such as “culture”, “cultivation”, “civilisation”, “citizenship” (national, European or ecumenic), “formation”, “competences”, “qualities of mind”, “intellectual qualities”, “breadth of understanding”, or even, unbelievably, “knowledge”, all keywords belonging for the last two centuries to the discourse of and about the university, about the higher learning, everywhere in the West (how can we account for the omission of these terms in the FT or the UK government’s statements about the role or the “mission” of the universities or of the expectations they entertain about students?5). “The City’s house journal” did not mention, either, “democratic citizenship”, or some democracy-related facet of education, which would almost certainly have been mentioned, most likely even stressed, on a comparable occasion, by, say, The Wall Street Journal. But in any case, my focus is, rather, on the character of the institutions students are going to have access to, whatkind of “form of life”, what kind of form of academic life, they will be participating in, as well as their teachers.

 

Now the academic advocates of the course referred to are undoubtedly extraordinarily busy people at any time, and the exertion of political pressure, not least on our rulers, is, I am sure, particularly draining (though 10 Downing Street is surely both more accessible and more amenable than the George W. Bush White House in either its first or its second version). So it is not clear whether they have had the opportunity to read, or re-read, anything of an analytical rather than merely encomiastic kind on American universities (it is American universities –and largely a subset of these, in effect- they unceasingly refer to, choosing to ignore other forms of excellence in American higher education, for instance the liberal arts colleges or even the great state universities). I have in mind a couple of works in particular…

 

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A UNIVERSIDADE MORREU

MJR

The Thing, John Carpenter, 1981

O filósofo italiano Giorgio Agamben fala, no seu livro La comunità che viene, publicado em 1990, da “pequena burguesia planetária” como um conglomerado que resulta da dissolução das antigas classes sociais. Esta nova e informe classe herdou o mundo, renunciando ao discurso da identidade popular e nacionalista através do qual procurava elevar o seu estatuto no interior dos estados-nação. Agamben vê-a como a forma através da qual a humanidade se permitiu sobreviver ao niilismo que o século XX instaurou.

 

Permitam-me uma breve citação do autor:“A pequena burguesia planetária libertou-se destes sonhos [de falsa identidade popular] e apropriou-se da aptidão do proletariado em recusar qualquer identidade social reconhecível… [Os pequeno-burgueses planetários] conhecem apenas o impróprio e o inautêntico, e recusam até a ideia de um discurso que se lhes adeque. Tudo aquilo que constituiu a verdade e a falsidade para os povos e gerações que se foram sucedendo ao longo de milénios na terra – diferenças de língua, de dialecto, de modos de vida, de carácter, de costumes, e até as particularidades físicas de cada pessoa – perdeu todo o sentido para eles e toda a capacidade de expressão e comunicação. Na pequena burguesia [planetária], as diversidades que marcaram a tragicomédia da história universal são agregadas e expostas através de uma vacuidade fantasmagórica.” (Agamben, 62-63)

 

A este propósito, também Bill Readings, no The University in Ruins, de 1997, discorre sobre o agudo problema da desreferencialização da cultura que afecta actualmente a humanidade e cujas implicações sobre a ideia de Universidade ele vê como “enormous”, no sentido em que tal desreferencialização, e a associada decadência do estado-nação, destruiu a ligação ideológica íntima entre a universidade e a cultura nacional, sua razão de ser desde Humboldt até ao final da guerra fria.

 

O diagnóstico de Bill Readings é de grande clarividência. Como académico inglês da área dos estudos culturais, ensinando numa universidade canadiana (Montréal), ele encontrava-se em boa posição para avaliar o processo de transformação do conceito e funcionamento da universidade, tal como foi imaginada e desenvolvida na Europa, através da adopção do modelo empresarial que vingou no Estados Unidos da América e agora se expande mundialmente.

 

A universidade como pilar cultural do estado-nação desmoronou-se com a crise deste face aos processos económicos, políticos e comunicacionais da globalização. Embora Bill Readings não fale propriamente nestes termos – até porque ele julga possível encontrar vias pedagógicas e ontológicas para que os académicos possam sobreviver entre as ruínas da academia -, poderíamos dizer que a universidade, enquanto produtora de sentido (por ilusório que tal actividade tivesse sido ao longo dos séculos), morreu.

 

Desaparecida a sua razão de ser, enquanto suporte ideológico do estado-nação, e perdidos os pressupostos que justificavam o seu generoso financiamento estatal, a universidade viu nascer do seu interior – como a Tenente Ripley do filme Alien 4, ou os companheiros de MacCready no The Thing – um dispositivo empresarial assente no princípio do estudante-cliente, na precarização do emprego académico, e na mercantilização do conhecimento e da investigação. O centro decisor da universidade deixou então de ser o corpo académico e a relação docentes-discentes para se deslocar para a função do administrador que, sendo ele a súmula do pequeno-burguês planetário, reinventou a de Universidade de acordo com os princípios do que Bill Readings designa ironicamente a “ideologia da excelência” – uma ideologia vazia de objecto e portanto apta a tudo canibalizar (do ponto de vista do gestor, a excelência da universidade não se distingue da excelência de um parque de estacionamento, por exemplo).

 

Nesta perspectiva, a busca de excelência, a obsessão da avaliação e dos rankings comparativos (confundindo convenientemente responsabilização, ou accountability, com contabilidade, ou accounting), a compactação dos tempos de aprendizagem, e sobretudo a suprema falácia que é a utilitarização do ensino em função dos requisitos do mercado de emprego, não passam então de dispositivos discursivos e políticos com que as administrações universitárias se vêm dotando para, enquanto empresas capitalistas num mercado globalizado, competir entre si numa desenfreada corrida sem critérios nem ideais.

 

Morta portanto a universidade, o seu nome e património foi sujeito a uma OPA empresarial. As empresas que se estão agora a implantar por todo o mundo, e em Portugal também, apropriaram-se abusivamente do título de “universidade” por motivos de pura estratégia de marketing. E esta evidência só não é reconhecida pelos académicos porque estes, tal como as células periféricas de um corpo em decomposição após a morte cerebral, ainda não foram devidamente informados da ocorrência. Nem seria esse o interesse ou sequer a função do Alien.

 

In Público, 14/07/07