Ken Robinson: “Os certificados universitários não servem para nada”
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Anónimo
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Abril 23, 2009
Há uma altura neste vídeo, em que ele observa o facto dos jovens licenciados não conseguirem arranjar emprego, e ficarem em casa a vegetar ou a ter empregos precários, nada relacionados com a sua área; sendo que, posteriormente, para se diferenciar no mercado de trabalho, as pessoas terão que tirar um mestrado, e chegará a altura em que isso já nem chega, sendo necessário, também, um doutoramento.
Numa altura em que há alunos que deixam as licenciaturas a meio por não terem dinheiro; que não continuam para os mestrados, pois não têm dinheiro para os mesmos (veja-se o caso da Gestão, onde uma simples pós-graduação no ISEG chega aos quatro mil euros, e no ISCTE há valores de seis mil euros!); e os alunos licenciados não arranjam nada excepto Call Centers; o nosso querido (cof) primeiro-ministro, tem a brilhante ideia de alargar o ensino obrigatório até ao 12º.
Se hoje em dia o 12º não vale nada; as licenciaturas para lá caminham, visto que, para algumas áreas, já se pede o mestrado como mínimo; imagine-se no futuro como é que isto vai ser, quando qualquer jovem tiver a «papinha feita» até chegar à Universidade. Com o 12º banalizado, não só se irá verificar uma geral desvalorização de todos aqueles que, por razões diversas, têm o 12º e nunca tiveram a possibilidade de ir para a Universidade, como, também, irá ser possível ver, a longo prazo, um decréscimo de «importância» de todos aqueles que se ficam apenas pelas licenciaturas.
Isto parecendo que não, é horrível. Se Portugal fosse um país decente, até se poderia considerar todas estas medidas positivas, mas isto não é a Escandinávia. Isto é o sul da Europa, com todos os seus vícios e afins.
Sinceramente, como jovem licenciado, preocupa-me imenso o estado deste país. Eu não conheço ninguém licenciado que esteja a trabalhar na área em que se formou – antropologia, então, é que não conheço mesmo ninguém; e nas entrevistas tenho sempre que andar a «vender» a disciplina para arranjar um mísero emprego precário nada relacionado com a área (!!!) – e verifico, de forma generalizada entre os jovens, sobretudo entre as gerações de 23 / 26 anos, uma completa descrença em relação ao futuro. O nosso futuro passa por um ordenado de 500€ e por completas depressões e angústias existenciais ao longo da vida.
A geração dos meus pais – quarenta e cinco anos / cinquenta – não era nada na vida pois tinha que trabalhar desde novos, e não tinha educação; a minha tem educação e tem menos perspectivas de vida do que a dos meus pais. Isto é surreal!
Ao contrário daquilo que pensa o nosso primeiro-ministro, penso que o futuro deveria passar, isso sim, por «restringir» o «acesso» à educação, nesta fase. Não alargar de modo algum a escolaridade obrigatória, e diminuir, inclusive, o número de vagas em todos os cursos superiores, por alguns anos, de modo a «escoar» todas as gerações de licenciados dos últimos anos.
Ir a uma sessão de licenciados do IEFP, por exemplo, é completamente paradigmático da realidade actual. Está-se na sala com enfermeiros; engenheiros; arquitectos; designers; e no fundo da sala lá estão os «outros», os de antropologia, e de vez em quando alguém de sociologia. Os outros, que são de áreas mais «socialmente reconhecidas», não arranjam nada, imagine-se alguém de antropologia. Em cada sessão somos obrigados a explicar o que é a disciplina, para que serve, quais as áreas em que pode ser útil, e somos levados a ouvir frases das técnicas: «antropologia não vende», «se ainda fossem de sociologia, dava para alguma coisa», e afins. É deprimente este confronto com a realidade pós-licenciatura. Há tempos, numa entrevista, cheguei a ser confrontado com a seguinte observação lá do novo rico, com o 9º ano, que subiu a vida a pulso e agora é patrão: «Você não tem vergonha de vir trabalhar para aqui, sendo licenciado? Você tem um filho e precisa de dinheiro, não é, confesse lá?». Isto é ridículo! Não, não tenho filhos, quero é um emprego, pois já estou farto de vegetar. Tenho a «culpa» de ser licenciado?
Vocês, docentes, revoltam-se com o facto da Universidade estar a ser vista como uma espécie de centro de emprego: formar para dar empregos. E eu compreendo isso perfeitamente, mas a partir do momento em que a Universidade se «banaliza» e deixa de ser apenas para as classes médias-altas / altas / burguesas, tem de se sujeitar a esta situação. Os pais metem os filhos nas Universidades, com vista a que eles tenham um futuro melhor, e isso passa, claramente, por obter empregos não precários. E a Universidade também tem muitas culpas, sobretudo na forma como «vendem» os cursos superiores, e em permitir que entrem, todos os anos, dezenas e dezenas de alunos. Como compreender, por exemplo, que antropologia no ISCTE, permita ter sessenta e tal alunos a entrar todos os anos? É surreal. Mais, vendem, na página do ISCTE, o curso como dando para isto e aquilo, quando depois, vai-se a ver no mercado de trabalho, que o número de pessoas que trabalha nessas mesmas áreas, é algo reduzido.
Antes de se alargar ensino até ao 12º, tem é que se reestruturar o ensino secundário na sua plenitude. A divisão por áreas científicas não tem feito mais nada do que prejudicar todos os alunos, que ao chegar ao 12º, são obrigados a seguir caminhos predefinidos. E depois há que mexer no ensino superior, visto que este estado de coisas não pode persistir.
Para finalizar, basta dizer que vejo cada vez mais jovens a querer emigrar, para fazer uso das habilitações que tem, ou até mesmo para ter empregos lá fora, que cá nunca teria. A verdade é esta: mais vale ser precário lá fora, mas ter um futuro e ganhar minimamente bem – comparando com Portugal – do que ficar encalhado neste país a vida toda e ser sempre um zero. Este país não tem futuro. Faz falta a este país uma elite intelectual que saiba juntar-se, bater com o pé, e instigar a uma nova revolução social e intelectual. Portugal está condenado a ser um país medíocre com uma classe política à lá Sócrates, com diplomas tirados ao domingo. Ao menos nisso o Sócrates foi bom: mostrar e concentrar numa só pessoa, o arquétipo do político português pós-25 de Abril.
Peço desculpa pelo testamento e possível descarregar de frustrações e angústias.
Há uma altura neste vídeo, em que ele observa o facto dos jovens licenciados não conseguirem arranjar emprego, e ficarem em casa a vegetar ou a ter empregos precários, nada relacionados com a sua área; sendo que, posteriormente, para se diferenciar no mercado de trabalho, as pessoas terão que tirar um mestrado, e chegará a altura em que isso já nem chega, sendo necessário, também, um doutoramento.
Numa altura em que há alunos que deixam as licenciaturas a meio por não terem dinheiro; que não continuam para os mestrados, pois não têm dinheiro para os mesmos (veja-se o caso da Gestão, onde uma simples pós-graduação no ISEG chega aos quatro mil euros, e no ISCTE há valores de seis mil euros!); e os alunos licenciados não arranjam nada excepto Call Centers; o nosso querido (cof) primeiro-ministro, tem a brilhante ideia de alargar o ensino obrigatório até ao 12º.
Se hoje em dia o 12º não vale nada; as licenciaturas para lá caminham, visto que, para algumas áreas, já se pede o mestrado como mínimo; imagine-se no futuro como é que isto vai ser, quando qualquer jovem tiver a «papinha feita» até chegar à Universidade. Com o 12º banalizado, não só se irá verificar uma geral desvalorização de todos aqueles que, por razões diversas, têm o 12º e nunca tiveram a possibilidade de ir para a Universidade, como, também, irá ser possível ver, a longo prazo, um decréscimo de «importância» de todos aqueles que se ficam apenas pelas licenciaturas.
Isto parecendo que não, é horrível. Se Portugal fosse um país decente, até se poderia considerar todas estas medidas positivas, mas isto não é a Escandinávia. Isto é o sul da Europa, com todos os seus vícios e afins.
Sinceramente, como jovem licenciado, preocupa-me imenso o estado deste país. Eu não conheço ninguém licenciado que esteja a trabalhar na área em que se formou – antropologia, então, é que não conheço mesmo ninguém; e nas entrevistas tenho sempre que andar a «vender» a disciplina para arranjar um mísero emprego precário nada relacionado com a área (!!!) – e verifico, de forma generalizada entre os jovens, sobretudo entre as gerações de 23 / 26 anos, uma completa descrença em relação ao futuro. O nosso futuro passa por um ordenado de 500€ e por completas depressões e angústias existenciais ao longo da vida.
A geração dos meus pais – quarenta e cinco anos / cinquenta – não era nada na vida pois tinha que trabalhar desde novos, e não tinha educação; a minha tem educação e tem menos perspectivas de vida do que a dos meus pais. Isto é surreal!
Ao contrário daquilo que pensa o nosso primeiro-ministro, penso que o futuro deveria passar, isso sim, por «restringir» o «acesso» à educação, nesta fase. Não alargar de modo algum a escolaridade obrigatória, e diminuir, inclusive, o número de vagas em todos os cursos superiores, por alguns anos, de modo a «escoar» todas as gerações de licenciados dos últimos anos.
Ir a uma sessão de licenciados do IEFP, por exemplo, é completamente paradigmático da realidade actual. Está-se na sala com enfermeiros; engenheiros; arquitectos; designers; e no fundo da sala lá estão os «outros», os de antropologia, e de vez em quando alguém de sociologia. Os outros, que são de áreas mais «socialmente reconhecidas», não arranjam nada, imagine-se alguém de antropologia. Em cada sessão somos obrigados a explicar o que é a disciplina, para que serve, quais as áreas em que pode ser útil, e somos levados a ouvir frases das técnicas: «antropologia não vende», «se ainda fossem de sociologia, dava para alguma coisa», e afins. É deprimente este confronto com a realidade pós-licenciatura. Há tempos, numa entrevista, cheguei a ser confrontado com a seguinte observação lá do novo rico, com o 9º ano, que subiu a vida a pulso e agora é patrão: «Você não tem vergonha de vir trabalhar para aqui, sendo licenciado? Você tem um filho e precisa de dinheiro, não é, confesse lá?». Isto é ridículo! Não, não tenho filhos, quero é um emprego, pois já estou farto de vegetar. Tenho a «culpa» de ser licenciado?
Vocês, docentes, revoltam-se com o facto da Universidade estar a ser vista como uma espécie de centro de emprego: formar para dar empregos. E eu compreendo isso perfeitamente, mas a partir do momento em que a Universidade se «banaliza» e deixa de ser apenas para as classes médias-altas / altas / burguesas, tem de se sujeitar a esta situação. Os pais metem os filhos nas Universidades, com vista a que eles tenham um futuro melhor, e isso passa, claramente, por obter empregos não precários. E a Universidade também tem muitas culpas, sobretudo na forma como «vendem» os cursos superiores, e em permitir que entrem, todos os anos, dezenas e dezenas de alunos. Como compreender, por exemplo, que antropologia no ISCTE, permita ter sessenta e tal alunos a entrar todos os anos? É surreal. Mais, vendem, na página do ISCTE, o curso como dando para isto e aquilo, quando depois, vai-se a ver no mercado de trabalho, que o número de pessoas que trabalha nessas mesmas áreas, é algo reduzido.
Antes de se alargar ensino até ao 12º, tem é que se reestruturar o ensino secundário na sua plenitude. A divisão por áreas científicas não tem feito mais nada do que prejudicar todos os alunos, que ao chegar ao 12º, são obrigados a seguir caminhos predefinidos. E depois há que mexer no ensino superior, visto que este estado de coisas não pode persistir.
Para finalizar, basta dizer que vejo cada vez mais jovens a querer emigrar, para fazer uso das habilitações que tem, ou até mesmo para ter empregos lá fora, que cá nunca teria. A verdade é esta: mais vale ser precário lá fora, mas ter um futuro e ganhar minimamente bem – comparando com Portugal – do que ficar encalhado neste país a vida toda e ser sempre um zero. Este país não tem futuro. Faz falta a este país uma elite intelectual que saiba juntar-se, bater com o pé, e instigar a uma nova revolução social e intelectual. Portugal está condenado a ser um país medíocre com uma classe política à lá Sócrates, com diplomas tirados ao domingo. Ao menos nisso o Sócrates foi bom: mostrar e concentrar numa só pessoa, o arquétipo do político português pós-25 de Abril.
Peço desculpa pelo testamento e possível descarregar de frustrações e angústias.
Como disse Thomas Jefferson: “A government big enough to give you everything you want, is strong enough to take everything you have”.
http://www.nytimes.com/2009/04/27/opinion/27taylor.html?_r=2&pagewanted=1&em